sexta-feira, 26 de junho de 2009

entrelinhas

E não passava de uma tarde estafante. Fazia calor, um calor fora do normal...
E seguiram do mesmo jeito as tardes seguintes.
Neela já não se importava com esses pormenores. Agora ela estava sozinha, na verdade nunca deixara de estar; nunca conseguiu confiar em alguém plenamente ao ponto de se sentir acompanhada.
Mas a solidão que ela estava tão habituada estava diferente, ela sentia que agora, realmente, algo estava lhe faltando.
A melhor parte de si, o sorriso mais sincero, a alegria mais singela fora enterrada há uma semana junto com aquele que fora o seu melhor amigo, melhor parceiro, melhor namorado.
E ficava se perguntando quando se sentiria segura novamente, quando sentiria que no mundo ainda há algum valor. Ela falava de amor. De amor. Um amor que sempre lhe pertencera, mas sentia que não era seu.
Chorava silenciosamente; a lágrima era o grito mais alto de seu desepero silencioso.
Ela já não tem o melhor de si própria, mas tem o melhor dele.
Ela que sempre procurou razões e explicações para tudo, lembra das promessas que ele lhe fazia:
-Haja o que houver, eu vou sempre, sempre -entendeu bem?!- sempre vou estar com você.
Hoje ela entende a promessa, não porque consiga explicá-la, mas porque consegue senti-la.


There there baby
It's just text book stuff
It's in the ABC of growing up
Now now darling
don't loose your head
none of us were angels
and you know I love you yeah




Lá, lá, baby
Isso é somente coisa de texto
Isso está no abc do crescimento
Agora, agora, querido
Oh, não perca a sua cabeça
Porque ninguém de nós foi anjo
E você sabe que eu amo você, yeah

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Despedida.


-Espere. Não vá ainda. Eu te ajudo a se arrumar. - Disse com a voz embargada.

Ela pegou as roupas que estavam numa sacola próxima, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Carregando não só a tristeza como também o amor que havia dentro dela.
Passou a camisa delicadamente pelo braço direito, depois o esquerdo, ajustou a roupa ao corpo e começou a abotoá-la.
-Você não precisa olhar pra mim desse jeito. Eu bem sei como você odeia precisar dos outros, principalmente para uma tarefa tão simples... Não é nada demais, garanto. - e deu uma piscadela e um meio sorriso. As lágrimas voltaram a deixar seu rastro molhado sobre a sua face.
-Esse silêncio é constrangedor, até mesmo pra gente... - Recomeçou – Você lembra do dia em que eu saí com o time de futsal, meu celular descarregou, o senhor não conseguiu falar comigo e entrou em desespero?! Bem, foi naquele dia que eu soube que o senhor chorou por mim. Nossa! Nunca me senti tão mal por fazê-lo chorar e, ao mesmo tempo, tão feliz. Era uma demonstração clara de amor. Ah! O amor! - Riu de se mesma – O senhor lembra como eu tinha medo de amar? Como eu sempre fugia dos meus pretendentes e de quando eu joguei tudo na sua cara, dizendo que era culpa sua?! Por ter mentido pra nós durante tanto tempo? … Não me orgulho do que disse, mas estava realmente chateada e peço desculpas por isso. Talvez seja um pouco tarde, mas peço mesmo assim.
A velhice não lhe fez tanto mal, sabe disse, não é?! O senhor ainda tem uns traços bem jovens, bem marcantes, bonitos. O senhor parece calmo, espero que realmente esteja.
-Deixe-me ajeitar essa gola...-continuou- O senhor se lembra de quando eu era criança e adorava ir ao sítio? Ficar com os cavalos, correr... nunca fui aquela menininha do papai, não é? Espero não ter te envergonhado... Eu acho que não. Mainha sempre disse que o senhor se orgulhava por eu não ser aquela garotinha que inspirava cuidados... -riu- é, acho que não fui tão ruim. Não sou tão ruim...
-Suspirou longamente- graças ao senhor. O senhor fez de mim uma pessoa melhor. Um ser humano melhor.

Lembra daquela vez que o senhor saiu de casa, como está fazendo agora? Adianta eu dizer que não precisa ir, não dessa vez? Acho que o senhor não tem noção da falta que fez e da falta que vai fazer agora. - Os olhos de seu pai permaneciam impassíveis, resignados. Ela percebeu a frieza e a distância no olhar, aquilo doeu por dentro, sabia que nada adiantaria, mesmo assim chorou e dessa vez deixou as lágrimas, e uns soluços de brinde, virem à tona, só calou o grito que berrava dentro de si, no âmago de sua existência. Segurou a mão dele e se acalmou, pouco a pouco. - Desculpe, não quero tornar as coisas mais dolorosas... mas quero que o senhor saiba que eu o amo, amo tanto... O senhor por favor não se esqueça de quem sou ou do que um dia representei para o senhor. Não me esqueça, não me esqueça – implorava docemente, chegando a parecer infantil.

Acho que está na hora de vestir as calças, não é? Já disse, não precisa me olhar dessa maneira. O senhor ficará bem, todos nós ficaremos bem. - Sorriu. Eu não sei se o senhor sabe, mas quando fui à Europa, conheci um certo senhor, já bem velhinho, que me dizia sempre que nos encontrávamos nas esquinas de Manchester, se eu sabia onde o meu tesouro estava escondido. No começo eu achei que ele estivesse ficando meio gagá por causa da idade e tudo mais, mas com o tempo ele foi me ensinando. Ele me deu umas dicas e cheguei à resposta de quem seria meu tesouro e lhe respondia sorrindo:-Minha família! É o meu tesouro, senhor Malcolm! E ele retrucava: - E onde eles estão agora? Eu respondia: No Brasil, em Recife! Uma bela cidade o senhor sa... Ele me interrompia e dizia: -Minha menina, você ainda não aprendeu, não é... Ficava chateada sempre que ele fazia isso. Custava ele parar de vez com as charadas? Bom, era sempre a mesma coisa até o dia em que ele pegou minha mão e disse: Querida, seu tesouro são as pessoas que você realmente ama e que verdadeiramente amam você, o que na maioria dos casos significa os verdadeiros amigos que você fez durante sua jornada e sua família. E eles não estão longe – ele colocou minha mão sobre o meu peito, perto do coração e continuou- eles estão bem aqui. Aonde quer que você vá, eles sempre estarão com você... eles são parte de você, assim como você é um pedaço deles.
Ah, pai! Só ali me dei conta que o meu coração e tudo que eu sou eu devo a vocês... uma boa parte do que sou só exite porque você existiu primeiro. Não vá... fique, por favor, estou lhe pedindo...
Disse sussurrando, as lágrimas agora caíam com mais violência.
Ficou ali, parada, olhando o pai, o tempo, o nada. Numa espécie de limbo pessoal, onde seus maiores medos confrontavam a pouca coragem que carregava junto a si.
Uma mão calorosa pousou sobre seu ombro e uma voz estremecida pelo medo, mas que ainda carregava a altivez da vida, disse-lhe carinhosamente: Vamos, filha. Já é o suficiente... é chegada a hora. O pessoal da funerária já vem pegar seu pai para levá-lo ao velório. Estão todos esperando, só a vida continua correndo. Vamos.







Para Felipe Sarafim;
meu querido, perdoe-me a falta de um texto melhor, há muito não escrevia e você sabe: a prática leva a perfeição. Infelizmente, meu conto está longe do esperado, mas fiz o melhor que pude. Para você, meu amigo! Este é todo seu.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sorria

Sorria.
Não se importe mais, apenas sorria.
Coloque em seu rosto o sorriso mais inquietante,
mais extravagante, mais sincero, que transborde uma felicidade incomum.
Não se incomode.
Ria de você mesmo.
Traga de volta velhos costumes infantis,
o brilho do olhar que a maturidade não pode apagar.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Para Mario, my dear friend (:

Ganhei um amigo.
Quer dizer, no fundo, no fundo a gente não ganha um presente como esse.
Um presente como esse não existe. A gente, na verdade, encontra algo que já era nosso por direito, mesmo sem saber que tínhamos. Encontrar um amigo é mais difícil do que se pensa ou supõe a Lógica humana, porque encontrar um amigo é se achar no outro, é recobrar, através dele, o pedaço que faltava no nosso ser e, assim, ir se completando... pouco a pouco.
Ter um amigo é ter a certeza de que não estamos sozinhos nesse mundo cão.
É estar sempre presente nele e ele em nós.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Como roubar um coração...

Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto,
não se alcança o coração de alguém com pressa.
Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.
Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente.
Conquistar um coração de verdade dá trabalho,
requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.
É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.
Para se conquistar um coração definitivamente
tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos.
Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,
que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele,
vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
Uma metade de alguém que será guiada por nós
e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração, fácil não?
Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade,
a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples...
é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você.
[Luís Fernando Veríssimo]

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ferreira Gullar: Vestibular

Paulo Roberto Parreiras
desapareceu de casa.
Trajava calças cinza e camisa branca
e tinha dezesseis anos.
Parecia com o teu filho, teu irmão,
teu sobrinho, parecia
com o filho do vizinho
mas não era. Era Paulo
Roberto Parreiras
que não passou no vestibular.

Recebeu a notícia quinta-feira à tarde,
ficou tarde
e sumiu.
De vergonha? de raiva?
Paulo Roberto estudou
dura duramente
durante os últimos meses.
Deixou de lado os discos,
o cinema,
até a namoradinha ficou dias sem vê-lo.
Nem soube do carnaval.
Se ele fez bem ou mal
não sei: queria
passar no vestibular.
Não passou. Não basta
estudar?

Paulo Roberto Parreiras
a quem nunca vi mais gordo,
onde quer que você esteja
fique certo
de que estamos de seu lado.
Sei que isso é muito pouco
Para quem estudou tanto
e não foi classificado (pois não há mais
excedentes), mas
é o que lhe posso oferecer: minha palavra
de amigo
desconhecido.
Nesta mesma quinta-feira
Em Nova York morreu
um menino de treze anos que tomava entorpecentes.
Em S. Paulo, outro garoto
foi preso roubando um carro.
ou surgem como cometas ardendo em sangue, nestas noites,
nestas tardes,
nestes dias amargos.

Não sei pra onde você foi
nem o que pretende fazer
bem posso dizer que volte
para casa,
estude (mais?) e tente outra vez.
Não tenho nenhum poder,
nada posso assegurar.
Tudo que posso dizer-lhe
é que a gente não foge
da vida,
é que não adianta fugir.
Nem adianta endoidar.
é que você tem o direito de estudar.
É justa a sua revolta:
seu outro vestibular.


Nada mais apropriado para a ocasião.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Eu sou a metáfora

Pura indefinição, a subjetividade objetiva.
Visão absurda e no entanto atrativa.
Descrição imprevisível aos Pensamentos de quem as pode ler,
Como as respostas sem pergunta devem ser.
Não posso deixar de sentir e sonhar,apenas por sua meta,
Seu objetivo é curvo, minha Subjetividade é reta.
Não se atreva me definir apenas em momentos,
Ficarias em Dúvida com seus próprios pensamentos.
Minha insanidade é perfeita,
A alma aqui se deleita,
De um veneno sem cura,
Eu sou metáfora pura.


Enéas Ribas Galvão.